Tempo de Corona -

          Tempo de Mudança?

Fragmentos de pensamento
Frei Klaus Th. Finkam ofm

Agosto de 2020
Artigo original publicado em alemão para revista Franziskanermission

Nós nos lembramos do dia 27 de março de 2020: uma figura de branco. O Papa luta para subir os degraus na praça da Basílica de São Pedro, o caminho é difícil para ele. Ele próprio pertence ao grupo de risco – na Itália. O eco do silêncio toma posse de cada um de nós, que em quarentena privada, percebe o mundo em mudança. Na chuva de Roma, o Papa se volta para o mundo1 e fala para um espaço sem gente. Os discípulos de Jesus na tempestade, o barco ameaça a virar. “Mas ele estava deitado sobre um travesseiro na popa do barco e estava dormindo.” Com os discípulos gritamos: “Mestre, você não se importa que morramos?” Então Ele se levantou, intimou o vento e disse às ondas: “Silêncio, fique quieto!” E o vento parou e fez-se silêncio total. E Ele lhes falou:

“Por que vocês estão com tanto medo? Vocês ainda não têm fé? ”(Mc 4, 38-40)

Neste dia, 27 de março, 919 pessoas morreram na Itália.2  Diante do panorama colossal da praça solitária de São Pedro, um mundo de joelhos diante da pandemia se espelha na chuva torrencial: “Se eu saio para os campos, eis os mortos à espada; se eu entro na cidade, eis as vítimas da fome! Até os profetas e os sacerdotes perambulam pelas ruas sem saber o que se passa. (Jeremias 14:18).
Pela televisão, nossa comunidade em Teresina (Piauí) acompanha as imagens angustiantes do aumento das mortes e como, em Bérgamo / Itália, os militares tiram os corpos na calada da noite.

A pandemia da doença corona vírus (COVID-19) atingiu a América Latina mais tarde do que outros continentes.3

No dia 26 de fevereiro foi notificado o 1º caso em S. Paulo (SP) e no dia 17 de março, a primeira morte. O vírus chegou ao Brasil de avião e avançou de avião, partindo, principalmente, dos dois focos: Rio de Janeiro e São Paulo.

Em 30 de abril, o mapa do Brasil estava assim: Piauí tinha “apenas” 600 infectados e 24 mortos. Em 3 de agosto, o Piauí registrava 53.224 infectados e 1.401 mortes.4,  os estados federais vizinhos, ao oeste, Maranhão: 122.482 infectados e 3.069 mortos, e ao leste, Ceará: 176.961 infectados e 7752 mortos. Em nosso Estado do Piauí, o governador e o prefeito, em conjunto, tomaram as medidas cabíveis bem cedo, a tempo. Com isso, lojas, escolas, igrejas e universidades foram fechadas, apenas o essencial permaneceu aberto: mercearias, farmácias, postos de gasolina, etc. O uso obrigatório de máscara em público e o conselho: “Fica em casa” – especialmente para a geração mais idosa com 60 anos para cima.

Entretanto, “cerca de 13 milhões de brasileiros vivem em favelas, muitas vezes trancados, pessoas demais para o espaço e pouco acesso à água potável. Recomendações de distância, quarentena e higiene quase imp­ossíveis. – Mesmo assim, muita gente nas favelas se organizou para agir da melhor maneira possível. O Brasil tem um grande setor de empregos informais com muitas fontes de renda que agora não existem mais. A população indígena já estava seriamente ameaçada antes do surto da COVID-19, pois o governo não apenas ignorou, mas até incentivou, a mineração ilegal e o desmatamento da floresta amazônica. Esses invasores e mineradores importaram o risco de desenvolver COVID-19 para essas populações indígenas remotas“.5 Na maioria das vezes, as pandemias atingem os pobres, cujo sistema imunológico está particularmente em risco: dieta duvidosa de péssima qualidade, ambiente violento, estresse social. Quando lutamos contra pandemias, muitas vezes esquecemo-nos dos outros grandes problemas sociais sob os quais o Brasil sofre: tráfico de pessoas, exploração, abuso sexual, etc. Hoje, a violência é a terceira causa da mortalidade, são 300 por um milhão de habitantes, ou seja, em número absoluto 63.300 mortes por ano. Com isso, o Brasil ocupa a triste décima posição no mundo.

Como o governo federal está reagindo?

Jesus reage ao grito de socorro dos discípulos, levanta-se e acalma a tem­pestade, ao contrário do presidente Bolsonaro. Os jornalistas pergun­­taram: “Presidente, o Senhor não se importa que muitos morram à míngua e que as infecções estejam aumen­tando a cada vez mais?” Aí ele se levantou, intima os jornalistas e respondeu: “E daí? O que devo fazer?” Ele não acalma a tempestade, mas a instiga. Em três semanas, ele perde dois ministros da saúde, demite o chefe da Polícia Federal e perde o ministro da Justiça. Já existem mais de 26 militares em cargos dentro do ministério da saúde, que se encontra ainda sem ministro.

Mesmo sofrendo sob o vácuo de liderança e de medidas políticas em nível federal, o Brasil deve enfrentar momentos difíceis. Segundo um estudo publicado recente­mente na Science: Evolução e propagação epidêmica de SARS-CoV-2 no Brasil6, o renomado virologista alemão, Prof. Kekulé7 , comentou a publicação assim: Desde o surto do vírus na Ásia e depois também na Itália, “a América do Sul teve tempo de esperar, por assim dizer tem assistido.” Alguém poderia ter tomado “medidas iniciais cabíveis… para reduzir maciçamente o número de infecções. Bolsonaro é, com razão, acusado disso”. Em carta aberta, o sociólogo Frei Betto8 acusa: “Está acontecendo um genocídio no Brasil. Somente a pressão do exterior pode deter o genocídio que aflige nosso amado e maravilhoso Brasil.”

O vírus é nosso professor – ouvimos e aprendemos com ele?

O vírus é um professor que nos ensina que a Mãe Terra não está satisfeita com nosso modelo de desenvolvimento. Destruímos flores­tas, poluímos água, expulsamos povos indígenas, pequenos agricultores só porque, nós, por exemplo, queremos comer carne barata todos os dias. Isso destrói nossa saúde e sofremos de hipertensão, doenças cardíacas, diabetes, obesidade e insuficiência renal.

Chamam atenção, particularmente, dois estudos.

O primeiro do Prof. Dr. K Püschel, patologista e médico legista, e Prof. Dr. M Aepfelbacher, virologista.9 Eles autopsiaram 167 mortes de COVID-19. As causas diretas da morte foram principalmente infecções do trato respiratório e dos pulmões, mas, em todos os casos houve comorbidades como doenças cardiovasculares pré-existentes, doenças pulmonares obstrutivas crônicas, neoplasias e doenças metabólicas. Na opinião dos autores, fotos de mortos, de caixões e de centenas de covas espalham mais pânico e pavor. Seria melhor conduzir mais análises de autópsias para garantir a qualidade da terapia hospitalar. “Mortui vivos docent!” (Os mortos ensinam os vivos).

O segundo estudo é do Instituto Científico da AOK (WIdO)  – institui­ção semipública de seguro de saúde,10 publicado em “The Lancet Respiratory Medicine”, examinou cerca de 10.000 pacientes Covid-19 em 920 hospitais alemães (26.2.-19.4.2020). No geral, “apenas” 22% dos pacientes morreram. Mas aqueles, assistidos por ventilação mecânica, morreram 53%. Pacientes com comorbidades precisaram ser assistidos por ventilação mecânica com mais frequência, e conse­quentemente morreram com mais frequência.

Mesmo pacientes mais jovens, com co­morbidades, podem facilmente se tornar pacientes de risco. Por outro lado, idosos, ativos e com boa saúde, sem comorbidades, têm um risco muito menor de morrer de Covid-19.

Provavelmente, o vírus, ficará conosco por mais tempo. As intervenções não farmacêuticas (NPI), como máscara, quarentena etc., podem nos proeger com eficácia até que medicamentos ou vacinas eficazes estejam disponíveis. Mas e se o vírus corona permanecer conosco por anos, semelhante ao vírus da gripe influenza? As mutações genéticas do vírus corona também tornarão as vacinas, de tempos em tempos, inúteis, até que novas sejam desenvolvidas. Portanto, o círculo começa novamente. A grande questão é:

O que precisamos fazer para melhorar o nosso sistema imunológico?

Com um bom sistema imunológico, vírus e bactérias têm menos chance.
Nas últimas décadas, alguns cientistas renomados11 encontraram respostas e exigiam mudanças em direção de uma prevenção consistente de saúde. Em suas clínicas (em grande parte universi­tárias), eles estão desenvolvendo com sucesso uma medicina integrativa. São, basicamente, três colunas importantes: mais atenção para a “body mind medicine” (uma medicina integrativa de corpo e mente: meditação, espiritualidade, incluindo a religião) para reduzir o estresse e melhorar as relações humanas; mais exercícios e uma alimentação mais natural e saudável, sendo ela vegana ou com pouquíssima proteína animal .
Temos tentado praticar isso em nossos cursos de saúde integral12 no Brasil há mais de 20 anos. O jejum terapêutico é um meio poderoso. E praticado como jejum intermitente, cada um pode fazê-lo em casa. Ambos fortalecem o sistema imuno­lógico de forma sustentável.13

Sigamos o sonho do Papa Francisco “de cuidar da casa comum”. Vamos fazer com que nossos governos gastem alguns bilhões por ano nesta meta: do jardim de infância à faculdade. As igrejas também são particularmente desafiadas aqui. Muitas pessoas e entidades já estão neste caminho.
Vamos fortalecer as redes e interligar as pessoas que cuidam da saúde com aquelas que protegem o clima, ou já praticam uma agricultura adaptada e familiar, com aqueles que prestam serviços para os mais fracos e necessitados da nossa sociedade em respeito às minorias.

„Vamos nos esforçar para amar e respeitar o maravilhoso presente da Terra, nosso lar comum, e cuidar de todos os membros da família humana. Como irmãos e irmãs que somos, queremos orar juntos ao nosso Pai celestial: “Envia do teu Espírito e renova a face da terra”14

Notas

  1. Andacht des Papstes mit Segen Urbi et Orbi: Ansprache, 27.3.2020 []
  2. Google: 1.caso de morte em 23.2.2020, e no dia 27.3.: 919 mortes []
  3. Evolution and epidemic spread of SARS-CoV-2 in Brazil []
  4. Piaui: Histórico de casos []
  5. Editorial The Lancet: COVID-19 in Brasil: “So whats?”(Übersetzung K. Finkam []
  6. Evolution and epidemic spread of SARS-CoV-2 in Brazil []
  7. Kekulé, Corona Kompassfolge 88, MDR []
  8. Frei Betto No Brasil ocorre um genocídio []
  9. Püschel K., Aepfelbacher M., beide UKE Hamburg, Obduktionen sind keinesfalls obsolet []
  10. (WIdO)  – instituição semipública de seguro de saúde, The Lancet: Case characteristics, resource use, and outcomes of 10 021 patients with COVID-19 admitted to 920 German hospitals []
  11. Escolha de alguuns cientistas renomados:
    Prof. Dr. Andreas Michalsen, Heilen mit der Kraft der Natur – Curar com o poder da Natureza Mit Ernährung heilenThe Fasting Fix: Eat Smarter, Fast Better, Live Longer (English Edition)
    Prof. Dr. Jason Fung, O código do DiabetesO código da obesidade
    Prof. Dr. Tobias Eich, Der Selbstheilungscode – Die Neurobiologie von Gesundheit und Zufriedenheit, Beltz Verlag
    Prof. Dr. Gustav Dobos, Das gestresste Herz – Mit Naturheilkunde und neuster Forschung länger leben, Scorpio []
  12. Curso de Saúde Integral: https://saude-integral.org []
  13. Sistema Imunológico e jejum – Google Scholar []
  14. Papa Francisco, Catequese por ocasião do 50º Dia Mundial da Terra []
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